Casal Wanderlust

Constitution Hill, um interessante museu em Joanesburgo

Em nosso segundo dia em Joanesburgo nós fomos visitar o Constitution Hill – ou Tribunal Constitucional da África do Sul.

Não é um museu tão conhecido como o Museu do Apartheid, mas é tão importante quanto para quem deseja conhecer um pouco melhor a jornada da África do Sul rumo a democracia.

O local que já foi uma fortaleza militar nos convida a uma reflexão sobre a segregação imposta pelo Apartheid e sobre os direitos humanos.

Em 1892 parte do complexo foi construído para ser uma prisão, inaugurada em 1893 para receber somente prisioneiros brancos. A prisão se tornou um forte militar no ano de 1896 quando um grupo de estrangeiros britânicos tentou derrubar o governo Boer (descendentes dos holandeses) e assumir o comando de Joanesburgo.

A invasão falha mas leva o governo a construir uma série de fortalezas para aumentar sua capacidade militar. Um desses é este, o Forte Velho (Old Fort), construído em torno da prisão. O Old Fort levou três anos para ser construído e, finalmente, foi concluído em junho de 1899, no valor de £ 40,000.

Old Fort

Old Fort

Em 1902, após o final da guerra Anglo-Boer, o local volta a ser uma prisão na qual grandes nomes da história mundial estiveram presos, tais como Mahatma Gandhi e Nelson Madela, além de centenas de outros ativistas que lutaram contra o Apartheid.

O prédio abrigava, em alas separadas, negros, coloured people (como eram chamados os mestiços/indianos/asiáticos) e brancos. Talvez a mais famosa e temida era a Ala 4, onde ficavam os negros.

Não só as celas e os complexos, mas também a dieta era diferente para os presos, assim como a divisão dos trabalhos. Os negros trabalhavam nas minas e na construção, obviamente no trabalho braçal mais maçante e pesado, enquanto os brancos e os mestiços faziam trabalhos administrativos.

Diferentes dietas entre os prisioneiros

Humilhações

Conforme mostra a foto acima, a dieta, ou seja, o que era servido para os prisioneiros negros, coloured e brancos era bem diferente.

Os brancos recebiam leite todos os dias, ao passo que os negros e coloured não recebiam este alimento. Os brancos e coloured recebiam pão diariamente, em diferentes porções, já os negros não recebiam nenhum. Além da falta de leite e pão, os prisioneiros negros eram privados de açúcar, farinha e gordura. O que eles recebiam em abundância era uma mistura de milho com fermento chamada de Puzamandhla, que dava-lhes força para aguentar os trabalhos braçais.

Não bastasse a escassez de alimentos, a parte negra da prisão também sofria (e muito) na hora do banho e de usar o banheiro.

Existiam apenas 12 chuveiros (gelados, obviamente) e jorrando água por apenas 30 minutos. E nesses 30 minutos mais de 2.000 presos tinham que lutar para poder tomar seu banho. O que era impossível. Imagine só?

O que restou dos chuveiros

Os banheiros eram latrinas no chão, como mostram as fotos abaixo – o que não necessariamente era um problema visto que esse tipo de sanitário é bastante comum em algumas culturas. A questão aqui é que os sanitários eram abertos e voltados para o local onde eles comiam! Ou seja, quem estava comendo era forçado a ver as pessoas que estavam utilizando os banheiros, assim como sentir o mau cheiro. E quem precisava usar o sanitário se sentia humilhado por ter de fazer suas necessidades em frente dos demais.

Tausa – a pior das humilhações

Ficar exposto e nu na frente de seus companheiros de cela era uma das grandes humilhações sofridas pelos prisioneiros da antiga prisão de Joanesburgo. Mas a “TAUSA” era ainda pior.

Os negros que trabalhavam nas minas eram obrigados a ficar nus na frente dos demais, agachar com as pernas abertas, pular e agachar novamente, para que assim os guardas pudessem se certificar de que eles não estavam escondendo nada no ânus.

Conforme o relato de um ex-prisioneiro na placa acima, esta era a pior das humilhações…

Créditos: https://www.constitutionhill.org.za

Apartheid

Durante o período do Apartheid a prisão recebeu tanto criminosos comuns como prisioneiros políticos, tais como Nelson Mandela, Joe Slovo, Albert Lutuli, Bram Fischer, entre outros que lá ficavam aguardando julgamento para depois serem enviados a Robben Island, na Cidade do Cabo.

Quem é um criminoso?

Essa é a pergunta feita aos visitantes e estampada neste cartaz em uma das salas:

Essa pergunta nos faz refletir.

Seriam criminosos os cidadãos comuns que foram presos por terem desobedecido as leis de segregação racial ou criminosos seriam os homens que criaram tais leis?

Uma boa reflexão, não é mesmo? 😞

Mahatma Gandhi

Gandhi foi preso em 1908 em Joanesburgo por não portar o seu passe de acesso a cidade. Já naquela época, antes do Apartheid, as pessoas negras e coloured eram obrigadas a portar uma permissão especial para ter acesso a cidade de Joanesburgo, mesmo os estrangeiros que possuíam o visto para a África do Sul. O que Gandhi achava um absurdo, pois se ele possuía o visto, por que teria que portar tal autorização? Por isso acabou sendo preso.

Hoje o museu conta com uma exposição sobre Gandhi, assim como um busto em sua homenagem.

O fim da prisão

Em 31 de janeiro de 1983, cerca de cem anos após a construção do Forte Velho, todos os prisioneiros foram transferidos para a nova prisão de Diepkloof ao sul de Joanesburgo. O último homem prisioneiro a atravessar o complexo da prisão foi Norman Meyer, acusado de fraude.

Constitution Hill hoje

Após o Apartheid, o recém criado Tribunal Constitucional da África do Sul necessitava de um local para estabelecer-se. Dentro dos diversos espaços sugeridos pelo Conselho Metropolitano de Joanesburgo, eles escolheram o complexo da prisão do Forte Velho. Em parte devido à sua acessibilidade e ao espaço que ele fornece, mas principalmente por sua importância histórica e simbólica.

O novo prédio foi construído com tijolos do antigo complexo, representando a construção de um novo futuro sem que o passado seja esquecido.

Na entrada do edifício principal estão gravados os 27 Direitos Fundamentais garantidos a todos os cidadãos pela nova constituição. Se quiser conhecê-los clique aqui.

A Luta Continua

Além disso há uma homenagem no museu aos Moçambicanos que participaram na luta contra o Apartheid.

Olha o nosso bom Português aí:

A frase na lateral da entrada principal da Corte não é somente uma homenagem, mas também um lembrete nos dizendo que a luta pela igualdade continua.

Diversidade

Atualmente a corte é composta por 11 juízes (entre brancos e negros), sendo um deles HIV positivo e um homossexual 😊

Como chegar

➡️  Você pode ir até lá utilizando o Gautrain (metrô de Joanesburgo), basta descer na estação Park Station. O bilhete do metrô custa USD 2,00. Lembrando que em sua primeira corrida será necessário comprar o cartão, que custa USD 1,25.

Da Park Station basta virar à direita na Avenida Smit Street e depois à esquerda na Hospital Street. Ou melhor ainda, se você for cara de pau como a gente, basta ir até o Posto de Informações Turísticas que tem dentro da Park Station e pedir para alguém te levar até lá.

A caminhada dura em torno de 10 minutos. Bem rapidinho!

➡️  O Constitution Hill Museum é também um dos pontos de parada do ônibus de turismo . Aqueles vermelhos de dois andares (hop-on hop-off).

➡️  O Uber também está disponível na cidade.

Quanto custa

O valor da entrada + visita guiada fica em torno de USD 5,00.

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10 comentários sobre “Constitution Hill, um interessante museu em Joanesburgo

  1. Larissa

    Excelente post! Emocionante, parabéns! Tenho alguns esboços de roteiro, pois a África do Sul está na minha lista de destinos mais urgentes, e não tinha dado importância para esse museu. Ainda bem que vi o post a tempo de corrigir!!!

    1. CASAL WANDERLUST Autor da Postagem

      Olá Larissa!
      Que bom que pudemos lhe mostrar um pouquinho desse museu que tanto gostamos. Inclua o Constitution Hill no seu roteiro e depois conta pra gente as suas impressões.
      Beijos e faça uma ótima viagem!
      Se precisar de qualquer informação é só escrever pra gente!

  2. Isabel Borgert

    Olá
    Gente quanta história. fico aqui viajando na viagem de vocês. Lendo este seu belíssimo texto fiquei imaginando a vida de Mandela que no caso pra mim um pouco mais conhecida.
    Que vida louca em, e pensar que somos todos irmãos …
    Que lugar incrível, espero um dia poder conhecer, alias ter tempo para conhecer.
    Beijos meninos se cuidem por ai.
    Saudades de vocês.
    Isabel

  3. rayaneaz

    Mandela e África do Sul são quase sinônimos. Johannesburg respira Mandela. Adorei o artigo! Uma história triste, mas que nunca deve ser esquecida…

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