Casal Wanderlust

Ritual de cremação hindu em Pashupatinath, no Nepal

Já escrevi posts aqui no blog sobre os encantos de Kathmandu e sobre como sobrevoar o Everest. Agora quero dedicar este post todinho a uma das experiências mais incríveis que pude vivenciar em terras nepalesas: a cerimônia de cremação hindu em um dos templos mais famosos de Khatmandu, o Pashupatinath.

ShivaEntrada do complexo Pashupatinath

O Templo Pashupatinath, em Kathmandu

Situado nas margens do sagrado rio Bagmati, o Templo de Pashupatinath faz parte da lista de Patrimônios Mundiais da UNESCO.  É um complexo religioso dedicado ao deus hindu Shiva. O deus destruidor, aquele que destrói o antigo para construir o novo! Shiva é um dos deuses hindus mais reverenciados no mundo e, depois do meu amado Lord Ganesha, posso dizer que ele é o meu segundo favorito.

Só os hindus podem adentrar o templo. Mas isso não foi um problema, pois foi ali mesmo, do lado de fora, eu pude presenciar um dos rituais mais interessantes de todas essas minhas andanças pelo mundo: um ritual de cremação hindu.

Pashupatinath Kathmandu

A cremação no Hinduísmo

Uma das bases da religião hindu é a crença na reencarnação, no renascimento e continuidade da alma. É necessário que a alma se liberte do corpo material para seguir seu caminho na roda das encarnações. As reencarnações acontecem até que a alma alcance um grau evolutivo superior, rompendo o ciclo de renascimentos e unindo-se em definitivo ao mundo espiritual. Atingindo assim o nirvana.

Templo Pashupatinath

A maioria dos hindus é cremada pois eles acreditam que o fogo funerário liberta a alma do corpo e a purifica. Sendo também uma oferenda ao deus Agni, o deus do fogo. Tudo isso para ajudar no processo de libertação e consequentemente no alcance da iluminação.

Porém nem todos os hindus são cremados. Os homens “santos”, as crianças (que são consideradas puras) e as grávidas (que carregam seres puros em seu ventre) tem seus corpos amarrados a pedras e jogados nos rios sagrados. Um exemplo são as cerimônias no rio Ganges na Índia por exemplo. Mas vou relatar minha experiência no templo Pashupatinath, em Kathmandu, no Nepal.

Pashupatinath

Local onde as piras crematórias são acesas – o céu nublado não ajudou muito nas fotos…

A cerimônia de cremação em Pashupatinath

O rito começa com a preparação do corpo e neste momento as mulheres também participam. O corpo do morto é preparado em uma escadaria nas margens do rio Bagmati. O corpo todo é lavado (simbolizando a lavagem dos pecados), envolto em óleos, ungido com perfumes e coberto com guirlandas e pétalas de flores.

Neste momento é possível ouvir orações que segundo a tradição hindu são para o deus da morte: Yama. Os pés do morto devem apontar para o Sul, onde está o reino de Yama. A cabeça deve apontar para o norte, para o reino de Kubera, o deus da riqueza.

Preparação do corpo

Depois de devidamente preparado, o corpo é colocado nessas espécies de macas feitas com bambu (vide foto abaixo) e levado até o local onde ficam as piras crematórias.

A pira crematória

Não são utilizados líquidos inflamáveis para acender as chamas. As piras são feitas com madeiras entrelaçadas e palha.

A cremação das pessoas mais ricas e importantes era feita com madeira de sândalo, uma madeira nobre e perfumada. Hoje em dia devido a raridade e escassez da árvore, são colocadas somente algumas toras de sândalo para disfarçar o odor de carne queimada.

Cremation Hindu

O morto é todo envolto em tecidos nas cores branca e laranja. As demais roupas são retiradas pois a crença é de que como viemos ao mundo nus, nus devemos retornar.

Toda a cerimônia ocorre no mais profundo silêncio e com muito respeito. Turistas podem observar, de longe. Fotos não são elegantes. Porém, para a cultura hindu a morte não é necessariamente um momento de dor, e sim de renascimento. Ainda assim eu preferi ficar de longe, escondida em um telhado com a minha super lente, clicando o momento mais interessante dessa minha viagem ao Nepal.

Na boca do morto é colocado um graveto aceso de cânfora, para purificar. Pois acredita-se que a vida começa pela boca e deve terminar através dela também.

Cremation Kathmandu

O ritual

É o filho homem mais velho quem acende as chamas. Ele dá três voltas ao redor da pira no sentido horário, acendendo aos poucos a chama crematória. A primeira chama é feita utilizando um feixe de palha com cânfora. Incensos também são queimados.

Não senti odor algum, nem da carne queimando, nem da cânfora, acho que porque estava de fato bem longe.

Body preparing for cremation

Ao final do ritual, as cinzas são recolhidas pela família e lançadas nas águas sagradas do rio Bagmati.

Após a cremação dos pais, o filho deve ficar recluso dentro de Pashupatinath por 13 dias. Depois disso, ele deve vestir somente roupas brancas pelo período de um ano. E após esse período de um ano é realizada outra cerimônia para assim cessar o luto.

Só posso dizer que foi uma experiência incrível e que me fez ter ainda mais vontade de conhecer Varanasi, na Índia, um dos locais mais sagrados para os hindus.

E você? Também gosta de conhecer outras culturas? Escreve pra gente contando.

Leia também:

Nepal: os encantos de Kathmandu

Sobrevoando o Everest

19 comentários sobre “Ritual de cremação hindu em Pashupatinath, no Nepal

  1. Adailma Ferreira

    Hei Mila que interessante seu post, convivo com várias pessoas do Nepal aqui em Abu Dhabi…. muito legal! Beijinhos

  2. Rafaella

    Nossa, muito triste. As diferenças culturas são totalmente diferentes, não sei se teria coragem em acompanhar esse tipo de ritual. Mas excelente post.

  3. Lulu Freitas

    Um país muito diferente. Confesso que acho mórbido assistir esse ritual mas é uma questão pessoal… o post é excelente

  4. cleberyamamoto

    Acho que não tenho vontade de assistir um ritual desses ao vivo rsrsrs, mas é super interessante conhecer a cultura, história e cotidianos de outros países. Obrigado por compartilhar.

    1. CASAL WANDERLUST

      Eu que agradeço pelo carinho e pelo comentário, Cleber!
      É de fato uma experiência perturbadora para muitos de nós, mas é justamente isso que me fascinou!
      Um abraço!

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